Vídeos com frutas humanizadas combinam estética infantil e temas polêmicos, com palavrões e preconceitos.
Por Redação
19/04/2026 às 15:21 | Atualizado em 19/04/2026 às 15:23
Com frutas antropomorfizadas (com características humanas) e enredos polêmicos, as “Novelas das Frutas”, criadas por Inteligência Artificial (IA), tornaram-se um fenômeno nas redes sociais, especialmente no TikTok. O sucesso, no entanto, acende um alerta entre especialistas, que questionam os possíveis impactos psicológicos desse tipo de conteúdo em crianças e jovens.
Como o conteúdo é criado por diversos usuários independentes, os roteiros frequentemente incluem palavrões, preconceito, misoginia e sexualização.
Personagens como “Moranguete”, “Bananildo” e “Abacatudo” são apresentados como protagonistas em vídeos curtos, produzidos em formato de “reality show”.
Ao Metrópoles, a psicóloga Maysa Nóbrega explica que novelas produzidas por inteligência artificial se enquadram no que é chamado de “brain rot”. O termo tem sido usado para descrever conteúdos considerados superficiais.
“Estamos em uma sobrecarga de informações muito grande. Chega informação de todo lugar, então esses vídeos oferecem uma válvula de escape, porque são histórias, muitas vezes, graves, como frutas em corpos humanos. É estranho, mas a parte emocional é familiar, porque são situações do dia a dia, coisas que a gente vê, lê e acompanha em notícias”, afirma Maysa.
Ainda conforme a psicológa, essas novelas são construídas em formato contínuo, sempre com ganchos que levam o espectador para o próximo vídeo, como estratégia lógica de um consumo sem fim.
“Isso contribui para uma dessensibilização, porque banaliza situações. Com isso, as pessoas vão normalizando das situações, como traições, violência e morte. O cérebro se acostuma com coisas fáceis. Tudo que exige mais reflexão vai sendo deixado de lado. Você ri, esquece, e é nesse esquecimento que acontece a banalização”, ressalta Maysa.
Para a psicóloga Victória Pannunzio, quando cenas de violência ou conflito aparecem em forma de animação (com frutas, por exemplo), elas parecem mais leves, quase “de brincadeira”.
“O espectador sabe, no fundo, que as frutas não tem sentimentos e não sentem dor. Mas ainda assim, podem se identificar com a história que contam ali. Ainda sentem emoções decorrentes daquele conteúdo, mas, dessa vez, as emoções presentes são de menor magnitude, permitindo que aquele indivíduo expresse e reflita sobre elas com um certo afastamento emocional”, diz Pannunzio.
Victória explica que as novelas se apresentam como uma espécie de fuga da realidade, mas reforça que nem todas essas fugas são indesejáveis. “O indivíduo, mesmo os adultos, precisam de um cenário lúdico para imaginar e criar. Expressar a dor, pautar o sofrimento e as violências. E a arte é o cenário perfeito para isso”.
Preocupação
Apesar do caráter aparentemente inofensivo, o consumo frequentemente desse tipo de conteúdo, principalmente para crianças e adolescentes, levanta preocupações.
Segundo Maysa, o cérebro humano ainda não está preparado para lidar com o volume de estímulos presentes nas redes sociais, o que torna esse tipo de vídeo ainda mais atrativo.
“Se o conteúdo está na internet, ele pode chegar até a sua criança. Em algum momento, seu filho pode cruzar com um vídeo que aborda esses temas. Na infância, o acompanhamento precisa ser mais direto. Você vai precisar observar, conversar e orientar”, afirma a psicóloga.
Victória Pannunzio destaca que as novelas são excessivamente coloridas, saturadas e imitam a estética dos desenhos infantis, o que a torna muito mais propícia e convidativa para a atenção vinda do público infantil. De acordo com a profissional, o problema se inicia nessa semelhança com desenhos infantis mas que retratam cenas explícitas, violentas e muito nocivas.
Pannunzio explica que o consumo de vídeos curtos e conteúdos expostos nas redes sociais, de modo geral, pode impactar profundamente o desenvolvimento dos pequenos.
“É preciso estar atento ao controle parental e educar os pais para que se mantenham vigilantes sobre o acesso de seus pequenos a conteúdos explícitos. O controle parental oferecido pelas plataformas muitas vezes se mostra ineficiente e ainda expõe os pequenos a conteúdos nocivos. É preciso conversar com seu filho, orientar as crianças e se manter atento aos sinais”, explicou.
Metrópoles